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sábado, 24 de setembro de 2016

Nunca é demais publicitar…

Vemos, ouvimos, lemos... e depois, que fazer?
Fernando Correia

Todos os dias milhões de portugueses vêem os telejornais e outros serviços noticiosos da TV e da rádio, lêem jornais ou vão «saber novidades» à Internet. Os media – falamos principalmente da televisão – são a única forma de conhecerem (e, para muitos, também aprenderem) o que, fora do seu circulo próximo, se passa no país e no mundo. E, no entanto, que real conhecimento tem a generalidade dos portugueses desse mundo que está por detrás e «fabrica» e «produz» as imagens, os sons e as palavras que nos informam e nos ensinam, decisivamente influenciando as formas de conhecer e de pensar a realidade, mas também de tomar decisões e agir?
Sublinhe-se que não é só de informação que devemos falar, mas também de conhecimento. Temos no nosso país meio milhão de analfabetos, mas muito superior é o número dos afectados pela iliteracia, e mais ainda pela iliteracia mediática, tendo em conta que a compreensão do que se vê e ouve na TV, desde logo nos programas informativos, exige um mínimo de conhecimentos, espírito crítico, capacidade de enquadramento e de «leitura» mediática de que a maioria não dispõe, independentemente do nível de escolaridade. Quantas vezes ouvimos nós pessoas dizerem, peremptoriamente, «é verdade» porque «vi na telelevisão» ou «disseram no telejornal»?
2. As dificuldades de apreensão por parte dos telespectadores tem sido agravada nos últimos tempos pela quase insânia tecnológica que invadiu os estúdios, dominados por imperativos competitivos (mais tecnológicos do que jornalísticos…) que muitas vezes conseguem complicar em vez de facilitar a vida do auditório. Termo simbólico desta competição: «interactividade».
Em texto recente no Público, António Bagão Félix refere-se à situação com justeza e humor: «O ecrã televisivo nos noticiários vem-se transformando numa salsicharia de notícias, quase-notícias e não notícias. De tal sorte que só seres dotados de grande capacidade são capazes de tudo abarcar: a voz do pivot, a imagem relacionada com a notícia, o rectangulozinho (ou janelinha) do entrevistado, o rodapé 1 com a «última hora», que tanto pode ser uma verdadeira última hora, como uma frivolidade, às vezes por cima do rodapé 2 com o discorrer de notícias (algumas já apodrecidas pelo tempo), a indicação das horas, e, como se não bastasse, por cima da imagem dos rodapés, ou mesmo sobreponível, a legendagem da prosa estrangeira. A isto acrescem imagens virtuais em mutação ou acelerado movimento com cores a rodos, por detrás dos intervenientes! É demais.»
«Quantas vezes ouvimos nós pessoas dizerem, peremptoriamente, «é verdade» porque «vi na telelevisão» ou «disseram no telejornal»?
Prossegue Bagão Félix: «Iniciada por um qualquer canal e logo seguida mimeticamente pelos canais concorrentes (ainda que com a televisão pública bem mais contida), a nova moda apresenta agora na tal janelinha do entrevistado do lado direito e na parte maior do ecrã uma sequência de imagens que se repetem a cada 30 segundos e provocam um irreprimível entediamento, para não dizer náusea, ao serem vistas pela enésima vez. Ontem, hoje e amanhã e depois de amanhã. (…) Há, ainda, um ponto que está para além desta apoplexia visual. Refiro-me a um aspecto que é, no mínimo, deontologicamente desonesto. É o de todos os dias se passarem "quilos" de imagens de arquivo sem que tal esteja devidamente assinalado ou datado no ecrã, já prenhe de tudo o resto. A larga maioria das pessoas não tem possibilidade ou capacidade de distinguir o que é arquivo e o que é actualidade. A confusão é total. Pior ainda, quando se trata de focar alguém por uma qualquer razão, misturando suas imagens com outras pessoas em momentos ou actos completamente desligados da substância da notícia. No frenesim competitivo, não há lugar à ética dos cuidados. Tudo igual, tudo indiferenciado, tudo misturado. Lamentável.»
3. Há outros aspectos, mais ligados ao conteúdo do que à forma (se bem que sejam indissociáveis), que quotidianamente nos chocam nos jornais televisivos, particularmente no campo político, quer pelas abordagens dos temas quer… pela sua ausência. E o silenciamento no telejornal equivale, de certo modo, à inexistência. Uma atitude imediata é o espanto e a revolta, a que logo se segue desespero. A primeira reacção é a vontade de denunciar, a segunda é a de que não vale a pena, a terceira é a que acaba por prevalecer: no dia seguinte, estoicamente, já sabendo o que nos espera, repetimos o mesmo calvário. Claro que é sempre possível (e, parecendo que não, também útil) fazer um telefonema, escrever uma carta, mandar um mail. Protestar vale sempre a pena. Pelo correio ou na rua. E quantos mais forem os que protestam melhor.
Mas existem outras atitudes possíveis e, tendo em conta a iliteracia mediática, mais produtivas, nomeadamente estimulando e promovendo o debate público da problemática dos media, que é uma das formas de os colocar onde devem estar: no centro da luta política e ideológica. Torna-se cada vez mais necessário:
- Desenvolver a compreensão dos mecanismos de produção da informação, na linha daquilo que no plano pedagógico se chama «educação para os media», e que no pós-25 de Abril foi objecto no ensino oficial de interessantes experiências, que urge recuperar, alargar e aprofundar (Luís Lobo referiu-se já oportunamente ao tema nesta coluna).
- Criar associações de telespectadores, ouvintes e leitores, movimentos de opinião, observatórios e clubes de discussão dos media, a nível local, regional, nacional.
- Incluir a temática dos media nas iniciativas dos movimentos associativo, popular e sindical, não só no plano da denúncia e do protesto, quando for caso disso, mas também na perspectiva do esclarecimento, recorrendo aos contributos de quem possa ajudar a «desvendar», por exemplo, como se constrói um telejornal, um noticiário, uma primeira página, ou a desmontar o modo como determinado acontecimento surge na comunicação social de forma que condiz com a realidade ou, pelo contrário, desfigurado, amputado do que verdadeiramente significativo aconteceu.
- Dedicar a cada vez mais necessária atenção à Internet, focando os pontos potencialmente negativos mas sem esquecer as potencialidades enquanto forma de conhecimento, intervenção, participação, informação e mobilização.
- Valorizar, debater e defender o lugar do Serviço Público: RTP - Rádio e Televisão de Portugal e Agência Lusa.
- Conhecer a diversidade e contextos de trabalho dos profissionais da comunicação social, sem esquecer as questões básicas relativas à propriedade dos media e à sua estreita relação com o funcionamento do sistema capitalista.
A comunicação social é produto e reflexo da sociedade, mas é também um seu poderoso instrumento e forte alicerce.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Por uma outra comunicação social

Cimeira do Movimento de Países Não Alinhados de 2016

«Sobre o último ponto da declaração, o presidente Nicolás Maduro disse, em declarações exclusivas à Prensa Latina, que os membros do MPNA sentem a profunda necessidade de estratégias de comunicação e de informação que estejam arreigadas nos processos históricos e culturais dos povos, ou seja, de abrir janelas sobre a realidade dos 120 países-membros, as suas lutas e objetivos comuns.
Neste ponto, os países mostram-se bastante preocupados com a utilização da comunicação social como instrumentos de propaganda hostil contra os países em desenvolvimento, com o propósito de derrubar os seus governos, e ressaltaram a importância de criar meios de comunicação alternativos, livres, plurais e responsáveis.
Maduro considera que isto é fundamental para fazer frente às campanhas mediáticas crescentes, que mentem sobre a realidade da Venezuela e de outros países do Sul. A este título, recordou a invasão de um país do Médio Oriente – o Iraque, em 2003 –, assente numa enxurrada de mentiras propagadas pela comunicação social dominante, grandes transnacionais da comunicação que justificaram a invasão com pretextos que ninguém pôde demonstrar.»

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

MANIPULAÇÃO E CENSURA NA COMUNICAÇÃO SOCIAL


29 SETEMBRO 2016 - 18h LISBOA Casa do Alentejo
colóquio subordinado ao tema
MANIPULAÇÃO E CENSURA NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

A liberdade e a democracia estão mais longe da Comunicação Social de hoje? Esta censura é menos ou mais complexa e destruidora do que a do fascismo? De onde vem? O que impossibilita e destrói a profissão e a vida dos trabalhadores do jornalismo, nos jornais, revistas, rádios e televisões?

A mediocridade, o medo e o silenciamento substituíram a coragem, a verticalidade e o direito à informação livre e transfiguradora que a Constituição da República proclama e o povo português necessita e exige?

Intervenções de

José David Lopes, José Goulão,
José Vítor Malheiros e Ribeiro Cardoso

Tantas perguntas, tantas respostas e esclarecimentos do que se passa são indispensáveis.

Vamos ouvir-nos. Porque todos temos experiências, análises, observações e silenciamentos a expor, a denunciar e a combater. Participe e exerça o seu direito a ter uma informação democrática e construtora de mais liberdade e perspetivas de futuro para todos.

Agradecemos a vossa participação e por favor divulguem a nossa iniciativa
A Direção


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Semiótica da Televisão por Fernando Buen Abad

Semiótica da Televisão

As armadilhas da "representação" televisionada

Nos modos de produção de “sentido” televisual, o problema do seu caráter representativo ou participativo tem também muita influência. Ao já de si odioso modelo de gestão dos “tempos televisivos” afogado pelo império da publicidade e do fundamentalismo de mercado, há que juntar o modelo intermediarista que a televisão comercial tomou como seu para nos impor o seu discurso, os seus gostos, os seus valores e dejeções ideológicas. Uma verdadeira calamidade.
A única coisa que pretendem é impor-nos alguém ou algo que “explica” tudo, com os seus meios e modos, a seu bel-prazer e conveniência. Leem-nos as notícias por eles seleccionadas e que dizem (com exagerado ênfase) ser “o mais importante”. Dizem o que devemos comprar, a que preço, com que “virtudes” e à custa de que condições. A crédito ou a pronto. Dizem-nos quem e o que é “belo”, “sedutor”, “sensual”, “atrativo”, “elegante” ou de ”sucesso”… impõem-nos os seus prazos e ritmos. Manipulam-nos o dicionário, o vestuário, o imaginário e o relógio. Em tempo real.

Há sempre um explicador para tudo, vendedor ou condutor… empenhado em ser o simpático, o eficiente, o esclarecido ou o iluminado. Disposto a levar-nos ao paraíso dos seus interesses políticos, ideológicos e comerciais. Principalmente comerciais. A televisão mercantil é uma máquina de guerra ideológica cravejada de intermediários que a tempo inteiro estão prontos para nos esvaziar a cabeça de qualquer ideia, de toda a possibilidade e oportunidade de participação autónoma. Há sempre alguém que conta anedotas por nós, há sempre alguém que canta canções por nós, que dança, que informa, que cozinha, que “sabe”, que “entende”, que “diz”, que “sorri”, que “saúda”… por nós e sem a nossa autorização ou prévio acordo. É o “mundo” deles que dizem “representar-nos”. E nós pagamos.

Os mais “espertos” apercebem-se da sua ditadura na representação e nos fingimentos e sabem assumir a forma de ”participação” que lhes convier, usando as pessoas como decoração, como meros figurantes de ocasião em encenações “democráticas” ou “populares”, quando tal lhes dá jeito. Dizem que “o público opina”, “participa” quando eles dizem, como eles dizem, até o que eles decidem. Democracia cronometrada. Não poucas televisões públicas estão infetadas com este veneno ideológico televisivo “representativo” que cansa, que dói, que ofende e humilha os povos “de todas as cores e latitudes”.

Não temos uma verdadeira Televisão Participativa. Salvo casos incipientes e dolorosamente incompreendidos, como a VIVE TV da Venezuela – no seu início – algumas televisões comunitárias que se conseguem salvar de intermediários parasitas de todo o tipo (igrejas, ONGs, partidos políticos oportunistas, Messias…) A Televisão Participativa, como Democracia Participativa, está por construir. É necessário muito trabalho e muita atenção crítica para eliminar das nossas cabeças (e das estações televisivas que os povos dirijam) o perigo de repetir o discurso burguês, o discurso do patrão nos écrans. Como se fosse nosso. São necessárias agudeza e experiência, desconfiança prática e vigilância científica, para não ser vítima da inoculação ideológica que nos representa como lhes convém.

A luta de classes também se expressa nos écrans. Não nos vamos cansar de insistir na urgência de romper com os modelos burgueses de comunicação, aproveitando criticamente só aquilo que seja aproveitável (fundamentalmente tecnológico) e rejeitando tudo o que de mais odioso tem um modelo de “produção de sentido” em Televisão, especializada como ela está em apagar dos olhos dos povos os próprios povos e em criminalizar os líderes sociais e as lutas sociais que desenvolvem esforços inimagináveis de participação na criação de um mundo novo, justo, sem guerras, sem fomes, sem classes e à vista de todos. Acabemos com a propriedade privada da televisão e com os monopólios. Uma Televisão Participativa é possível, é necessária e urgente.

Fernando Buen Abad
Tradução CS/APS

terça-feira, 6 de setembro de 2016

A Festa do Avante e os media


A Festa do Avante - o maior acontecimento político-cultural desta época, depois da Universidade de Verão do PSD e da Escola de Quadros do CDS – segundo as queixas de alguns dos seus amantes, não tem um impacto mediático proporcional às suas dimensões. Será verdade mas, convenhamos, que mal irá a nossa comunicação social quando der maior cobertura ao que se passa numa festa, ainda que grande ou até a maior, do que ao trabalho sério que se desenvolve numa universidade ou numa escola.

Depois, também não é verdade que a Festa não seja notícia, o ano passado houve um documentário sobre a visita do futuro presidente da república e um escândalo com seguranças homofóbicos, este ano foi destacada a presença dum cidadão membro do governo e um ovo estragado, pró ano será, quem sabe, uma referência à Festa na homília do cardeal ou a proibição de acesso a animais. A Festa passa sempre na televisão, no mínimo com trinta segundos do discurso do secretário-geral, correspondente a uma frase criteriosamente selecionada ou então duas ou três entrevistas a pessoas comuns, retiradas dum painel de vinte ou trinta tentativas, que disseram aquilo que o dono queria ouvir.

Estarei com os críticos da relação da comunicação social com a Festa se a manifestação do seu desagrado tiver o objetivo perverso de “quanto mais nos queixarmos, pior eles farão!”. Isto porque uma das características que me agrada na Festa é precisamente a sua natureza não mediática - a Festa como um segredo cúmplice dos que lá vão. Se um dia a televisão e os jornais fizessem um trabalho jornalístico adequado à vivência da Festa, a mesma seria desvirtuada porque seria invadida pelas gentes cuja agenda é determinada pela TV e pelo Correio da Manhã. Simultaneamente, a afluência de muito mais gente esgotaria a capacidade da organização, stressando os serviços e alterando significativamente os perfis tradicionais dos festivaleiros.

A Festa emociona-me enquanto for assim. Sugiro até que, para o ano, a organização não faça publicidade e afixe os cartazes habituais dizendo apenas: este ano a Festa do Avante, que se realiza nos dias 1,2 e 3 de setembro, não tem publicidade.

domingo, 4 de setembro de 2016

Trabalho sujo



O crime em si é já uma imperfeição. Esta tirada filosófica, vem a propósito, e uma vez mais, da censura canalha da RTP1 paga por todos nós.

4 de setembro de 2016. Recuperei o início do jornal da manhã e, às seis e meia (6.30 da manhã) tive a grata surpresa de ver uma peça muito correta sobre a ‘Festa do Avante’. Com a ingenuidade natural a quem está sempre disposto a acreditar na regeneração de gente menos sã, exclamei para os que me rodeavam: Já não era sem tempo!

No noticiário das nove dessa mesma manhã a notícia tinha sido castrada e a ‘peça’ insossa e reduzida aos banais vinte e poucos segundos.

Às seis e meia da manhã de um domingo de verão quem é que não está a ver televisão?